28 Novembro, 2006

Isso é covardia!

Mais importante do que abater um oponente é cativá-lo. Por isso os olhos enormes dos filhotes mamíferos são armas poderosas contra os predadores. Não há para onde correr diante de olhos lacrimosos e pidões. Como escapar a essa ditadura da ‘fragilidade-sedutora’ sem se tornar um pouco pior por dentro? Abocanhar com fúria algo tão pequeno e desajeitado seria a declaração de insensibilidade, o carimbo no passaporte para o inferno. Esta é a maior ruína de um romântico. Estes homens podem resistir ao escárnio, ao achincalhe, à acidez da ironia, aos golpes de socos e pontapés, mas é impossível resistirem ao úmido olhar feminino. Retinas afogadas em lágrimas são como ogivas nucleares apontadas para o peito. Presas e garras retraem diante desse golpe sórdido. Todas as armaduras desabam.

Crava teus dentes na minha pele, funga, esperneia, grita, mas, por favor, não me olha entre lágrimas, que não resisto.

23 Novembro, 2006

Relacionando figuras

O tema da minha dissertação não é dos mais “digestivos”, o que me obriga ler (e ver) de tudo um pouco: algumas coisas legais e outras bem desagradáveis. Para amenizar um pouco, antes de dormir, tenho lido temas leves e menos teóricos. No início da semana comecei a ler um livro do Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Alguns de vocês vão dizer: ”O cara lê semiologia pra descansar? Agora pirou de vez”. Mas esse livro não é maçante e parece ter sido escrito muito mais como um hobby do que um estudo de linguagem ou algo do gênero, o que o torna uma leitura realmente agradável. Bem, não quero fazer uma resenha do livro, então não vou entrar em grandes detalhes (mas recomendo pelo que li até aqui). O livro trabalha com ‘figuras’ do discurso amoroso na tentativa de traçar um perfil do amante. Traz um mapa de elementos discursivos para, através dos textos, definir um sujeito que ama. Estava lendo sobre ‘O Abraço’ que, na concepção do livro, representaria a união do amante com o ser amado. De forma contraditória, ele faz a ligação do conforto do colo materno e o impulso erótico, genital, de possuir a amante, colocando em justaposição o homem e a criança. Dentro desse quadro incestuoso, Barthes usa a imagem de Eros para ilustrar o amante, como ele definiria: “uma criança de pau duro”. Diante dessa ‘imagem’, inevitavelmente fiz a ligação com um assunto que vira-e-mexe tenho debatido com a Babi, com amigos e até em alguns posts: essa tensão de querer crescer e ao mesmo tempo não assumir a responsabilidade – que caracteriza tão bem o os dias de hoje. Pensei na crise de responsabilidade, na busca do prazer sem limites e nos desdobramentos desses conflitos.

O único problema de relacionar essas figuras é que será impossível abraçar alguém carinhosamente, ou avistar um adolescente tardio – cantando pneus com o som no último volume ou balançando os seios ‘siliconados’, do alto dos saltos, durante um passeio na Redenção – e não lembrar de um garotinho de pau duro.

Eros, sem dúvida, é a melhor representação para ilustrar o nosso tempo.

"Abraços" pra todos!

PS.: Dani, esse tu entendeu?

18 Novembro, 2006

Citação XI e comentário

"As pessoas moralmente maduras são aqueles seres humanos que cresceram a ponto de precisar do desconhecido, de se sentirem incompletos sem uma certa anarquia em suas vidas, que aprenderam a amar a alteridade".
Zygmunt Bauman

Quando pensava em viver incompleto - sendo uma parte em separado - a sensação que sempre me vinha à mente era a angústia. Mas lendo o polaco, parece-me que o segredo está em aceitar o trabalho inacabado como parte de ser o que se é. A angústia seria a tentativa de finalizar um trabalho em progresso constante, em não aceitar a diferença e a interdependência que temos com o desconhecido dos 'outros'. Só identificar a diferença e se perceber incompleto não evita a agonia. Seria necessário compreender a condição, aceitar um pouco do caos e conviver com a anarquia até que ela faça parte de nós.

14 Novembro, 2006

Pele para esfolar

Hoje é o dia de vestir minha pele de gente. Deixar de lado o olhar redutor que recorta o mundo e os outros; abandonar o mito de bom moço durante uma hora; iluminar o esconderijo por trás das máscaras que me puseram. Dia de ver o doutor. Furungar as feridas. Ele vira e elogia a crueza das personalidades em formação. – Pensa na maneira áspera das crianças: terrivelmente amáveis na forma rude de dizer o simples, o óbvio. – Esse simples que nossas superfícies polidas esquecem de refletir é o embaraço que fazemos questão de não pensar, de não dizer, de tornar opaco e esquecido. Lembra-me, o doutor, que por baixo da camada endurecida de minha pessoa há calor, entropia e inconsistência pedindo passagem. Depois do trabalho de aparar as arestas, esculpindo minha forma ergométrica que serve tão bem ao olhar dos outros, vem uma tarefa árdua: sair desta proteção anatômica e voltar a ser cru. Recuperar as incongruências anestesiadas pela boa educação. As texturas não precisam ser coerentes. Não devemos poupar o mundo do erro, do sujo, do irracional.

– Só escreve sem pudores.

Tudo bem, doutor. Vamos escrever.

08 Novembro, 2006

Citação X

"Ainda que o logos seja comum a todos, a maioria dos homens vive como se cada um tivesse uma sabedoria particular."
Heráclito