Isso é covardia!
Crava teus dentes na minha pele, funga, esperneia, grita, mas, por favor, não me olha entre lágrimas, que não resisto.
Onde ficam as ideias que passam
Crava teus dentes na minha pele, funga, esperneia, grita, mas, por favor, não me olha entre lágrimas, que não resisto.
O único problema de relacionar essas figuras é que será impossível abraçar alguém carinhosamente, ou avistar um adolescente tardio – cantando pneus com o som no último volume ou balançando os seios ‘siliconados’, do alto dos saltos, durante um passeio na Redenção – e não lembrar de um garotinho de pau duro.
Eros, sem dúvida, é a melhor representação para ilustrar o nosso tempo.
Hoje é o dia de vestir minha pele de gente. Deixar de lado o olhar redutor que recorta o mundo e os outros; abandonar o mito de bom moço durante uma hora; iluminar o esconderijo por trás das máscaras que me puseram. Dia de ver o doutor. Furungar as feridas. Ele vira e elogia a crueza das personalidades em formação. – Pensa na maneira áspera das crianças: terrivelmente amáveis na forma rude de dizer o simples, o óbvio. – Esse simples que nossas superfícies polidas esquecem de refletir é o embaraço que fazemos questão de não pensar, de não dizer, de tornar opaco e esquecido. Lembra-me, o doutor, que por baixo da camada endurecida de minha pessoa há calor, entropia e inconsistência pedindo passagem. Depois do trabalho de aparar as arestas, esculpindo minha forma ergométrica que serve tão bem ao olhar dos outros, vem uma tarefa árdua: sair desta proteção anatômica e voltar a ser cru. Recuperar as incongruências anestesiadas pela boa educação. As texturas não precisam ser coerentes. Não devemos poupar o mundo do erro, do sujo, do irracional.
– Só escreve sem pudores.