Citações VI
mas todos os vossos sonhos são sonhos de imortais"
Sêneca
"Não existe nada mais maravilhoso-apavorante que o homem"
Sófocles
"Saiba, portanto, que soberbo paradoxo você é para si mesmo"
Pascal
Onde ficam as ideias que passam
Nem preciso dizer que ando ocupado. Só espero que vocês não se acostumem com as citações coladas por aqui, porque um dia pretendo voltar a escrever minhas bobagens. Juro que escrevo citações de vez em quando, só pra não judiar muito de vocês.
Hoje resolvi escrever sobre um pensamento que passou por mim. Não sei por que, mas lembrei de um filme que vi semana passada, onde o Tom Hanks discute com o Dan Aykroyd. Eles falavam sobre o quanto os animais do Zôo de Los Angeles estariam “felizes” e "gratos" por terem sido seqüestrados da vida selvagem e levados para cubículos onde podiam andar “confortavelmente” sobre o cimento. Bem, estava mastigando um pedaço de pão, navegando na internet e me veio essa idéia, um tanto estapafúrdia, mas que pode fazer algum sentido. Enquanto mordia o canto da língua (e isso doeu muito) pensei que, de alguma forma, nós também “seqüestramos” nossas vidas práticas, ou o tempo que costumávamos dar a elas, e nos enjaulamos voluntariamente no conforto dos nossos escritórios. Em muitos casos, reduzimos nossas vidas sociais às “janelinhas” desse zoológico digital em que vivemos: Orkuts, MSNs, blogs, e-mails... Ok, todas essas "ferramentas" podem nos manter em contato com as pessoas que gostamos, mas na verdade não estamos em “contato” com ninguém. Esses cercados digitais onde estamos em exposição e, eventualmente, visitamos para jogar amendoins, digo, scraps e mensagens de “carinho”, acabam servindo de válvulas de escape moral ou uma espécie de centro de absolvição das nossas faltas com os amigos e as pessoas que realmente queremos perto de nós. Fiquei pensando se o tempo em que estou VIVENDO de fato não é só esse tempo na “jaula digital”, pois passo mais tempo no trabalho e na manutenção das jaulas do que realmente vivendo. Bem, acho que poderia escrever muito mais sobre esse tema, mas tenho coisas a fazer fora do cercadinho. Com certeza esse pensamento merece mais reflexão, mas talvez use esse tempo para juntar os amigos no final de semana, passear no zoológico e protestar contra o seqüestro da vida selvagem. Já pensei em me juntar à Frente de Libertação dos Anões de Jardim, mas a nanoescravidão no Brasil está
Well I feel just like a child
Yeah I feel just like a child
Well I feel just like a child
Well I feel just like a child
From my womb to my tomb
I guess I’ll always be a child
Well some people try and treat me like a man
Yeah some people try and treat me like a man
Well I guess they just don’t understand
Well some people try and treat me like a man
They think I know shit
But that’s just it
I’m a child
Well I need you to tell me what to wear
Yeah I need you to help and comb my hair
Yeah I need you to help tie my shoes
Yeah I need you to come and keep me amused
From my cave to my grave
I guess I’ll always be a child
Well I need you to help me reach the door
And I need you to walk me to the store
And I need you to please explain the war
And I need you to heal me when I’m sore
You can tell by my smile
That I’m a child
And I need you to sit me on your lap
And I need you to make me take my nap
Could you first pull out a book and
Read me some of that
Cause I need you to make me take my nap
And I need you to recognize my friends
Cause they’re there even though you don’t see them
They got their own share of plate and a seat
You know I won’t touch my food unless they eat
From the roof to the floor I'll crawl around some more
I’m a child
And I need you to help me blow my nose
And I need you to help me count my toes
And I need you to help me put on my clothes
And I need you to hide it when it shows
From being my daddy’s sperm to being packed in an urn
I’m a child
Don’t you stop 'til the tears run dry
See I was born thinking under the sky
Didn’t belong to a couple of old white guys
From sucking on my mother’s breast
To when they lay my tomb to rest
I’m a child yeah
Well I’m a little child
Well I’m a little child
I guess I’m always be
A little child
[Devendra Banhart]
Estranho como coisas reveladoras acontecem em lugares banais. Semana passada, antes de voltar para casa, resolvi ir ao supermercado abastecer a despensa para o fim de semana, e claro, exercer minha obrigação de consumidor. Bem tranqüilo, dirigindo meu carro e protegido das tristezas do mundo, pensava em coisas da vida: no destino, nos encontros e desencontros, no trabalho, etc. De repente vi uma cena que me chocou, que me fez ver o mundo em câmera lenta por alguns segundos. O pior é que era uma cena relativamente comum, que se vê em qualquer sinaleira por aí. É tão comum que já faz até parte do ato de dirigir: reduzir; diminuir a marcha; parar; colocar o carro em ponto-morto; fazer cara de poucos amigos; balançar o indicador da mão direita no vidro da porta; engatar a primeira; acelerar e não pensar no mundo do lado de fora.
Mas vamos voltar para cena que me iluminou: entrei no estacionamento do supermercado e avistei um aglomerado de seguranças, todos em seus uniformes pretos, muito bem alinhados como pede a etiqueta do local. Eles cercavam um cidadão maltrapilho, sentado no meio fio, olhando pro chão enquanto segurava uma garrafa de Coca-Cola cheia d’água. Fico pensando porque não me anestesiei com essa cena, porque não fiquei insensível, como sou, na maior parte das vezes, com os garotos malabaristas da sinaleira. Devia ter passado inabalável por esse fato, mas aquilo foi como um grande acontecimento no meu dia.
Uma espécie de conivência vergonhosa me esquentou a coluna e ruborizou meu rosto. Tive nojo de mim mesmo e de tudo aquilo. Do meu “carro-escudo”, dos seguranças “higienizadores”, do “espaço-bolha” que é o supermercado, do nosso mundo que não enxerga pessoas, pois está preocupado com o fluxo da grana, com as taxas e com a circulação das mercadorias que devemos consumir o mais rápido possível e, de preferência, sem pensar.
Enquanto meu corpo se auto rejeitava percebi como acontece o câncer. Aquele homem cercado pelo aparato de segurança do supermercado, feito um vírus pestilento, era a sujeira que não queremos ver, que não pode existir nos espaços de circulação e de beleza que servem ao nosso sistema de consumo. Não podemos ser importunados, ou chamados às consciências humanitárias e sociais durante o êxtase do consumo. Em nosso tecido social criamos grandes avenidas e espaços livres desses cidadãos que “só servem” para nos fazer ver a imperfeição que nossas vidas sustentam. Mas foi nessa hora que pensei no câncer. O virulento mendigo foi facilmente identificado e extraído desse espaço limpo e imaculado, quase sagrado, mas a revolta que gritou em mim foi invisível e me fez ver como surgem as resistências convulsivas, os homens-bomba, os franco atiradores, os mendigos filósofos... A implosão do sistema dentro do próprio tecido. Convulsionamos ao ver nossas falhas, nossa conivência com esse código genético que nos desumaniza. É assim que se dá o câncer e os atos de terrorismo sem bandeira ou causa. O ato limite que chamamos de loucura e que na verdade pode ser a iluminação final de uma célula caída. Um choque no tecido inerte que quer fazer pulsar alguma vida nesse corpo cataléptico.
O que mais me chocou de verdade é que não me permiti explodir. Assim que a câmera voltou a seu movimento natural, eu estacionei meu “universo móvel particular” e fui cumprir minhas obrigações. Fiz as compras pensando nesse texto e no que tinha acabado de ver, mas não conseguia me voltar contra o mundo. A cena não foi o suficiente para me fazer abrir fogo contra a humanidade em êxtase dentro do “shopping”, nem para roubar um avião e me lançar contra o Pentágono. Só conseguia pensar em escrever (e talvez esse seja o meu maior ato terrorista).
Desisti de virar câncer e resolvi levar minhas compras para casa. Já estava quase feliz quando depositei o cartão na máquina e passei pela cancela eletrônica do supermercado.
Fiz a curva, o reflexo no plástico transparente e o logo vermelho na garrafa me chamaram a atenção. Ele estava do lado de fora, mas estava ali. Não é porque não os vemos que eles não existem. Enquanto esperamos o câncer chegar, continuamos cegos e negando a peste que aumenta do lado de fora da bolha criada para nos defender, e que no final vai nos asfixiar em nossa falta de virtudes.
Estava largado no chão, abraçado nas próprias pernas, sentindo o sangue vazar de seu corpo. Deitado na proa do Avadí, Sebastião ainda lutava com as vozes em sua cabeça, mas Irene e os pequenos não estavam mais no galeão. O que sobrara no convés era o vazio e a violência rubra de sua loucura. A outrora cintilante embarcação se mostrava escurecida pelo sangue e pela dor.
À deriva no meio da densa neblina, Sebastião volta a ouvir o canto.
- Lute por nós. Não nos deixe perecer. Secaremos tuas feridas, te amaremos eternamente...