O desânimo é o retrato mais fiel da cena que passo a lhes narrar agora. Num canto esquecido pela penumbra, a luz trêmula de um abajur se esforça a mal iluminar o corpo inerte sobre a cama. No teto, gira vagarosamente um velho ventilador que, inutilmente, tenta incomodar o mormaço. Com dificuldade reumática, o ruído das hélices atravessa o quarto em meio à desordem do lugar. Armários, de portas escancaradas, parecem cuspir toda espécie de detrito que cobre o chão do aposento. A clausura, na qual encontramos esse coitado, aprisiona o odor tépido do suor e da doença que tomam conta de tudo.
Faz horas que nada acontece neste quarto, mesmo o ruído constante e alguma manifestação pulmonar esporádica fazem parte da inércia que assistimos até aqui. Mas voltemos nossas atenções ao indivíduo afundado no colchão. Esse ser decrépito, de aparência débil e raquítica, com seus olhos pustulentos e cabelos desgrenhados morrerá em alguns minutos. Bem, mas não se apavorem, esse fato não é digno de pena.
Guardem essa cena na memória. Nossa estória começa agora. AGORA entramos num daqueles momentos implosivos. Como um buraco negro, onde futuro, passado, presente, real e imaginário acontecem no mesmo INSTANTE, no vácuo que consome e destrói tudo para depois expelir um novo momento. Imaginem que todos os instantes são como pequenos pontos que conectam uma teia de possibilidades. Nossa vida é uma sucessão de instantes que percorre as linhas dessa teia e que a todo o momento o acaso pode nos mudar de trajetória ao longo do percurso. Esse instante é como um grande ponto onde todas as linhas da teia convergem. Este é o momento onde a teia acaba e começa.
De olhos fechados, só quer pensar no ruído do ventilador. Cansado de lutar só quer se render, se entregar. No meio do ar denso e do cheiro fétido que lhe cerca, ele a sente chegando. Automaticamente seu corpo responde: os músculos retesam, os sentidos aguçam e ele ergue-se sobre os braços. Não quer abrir os olhos. Sabe que ela está ali, parada diante dele. Sabe que lutará, mas já não tem forças.
Abro os olhos num susto. Ela nem se move, continua ali, oculta na sombra. Lentamente, estico-me para alcançar o abajur e trago-o para perto de mim. A luz chega a sua face e o alaranjado de seus olhos repele o pálido verde dos meus. Agora posso ver os longos cabelos vermelhos e um plácido sorriso cheio de sadismo e arrogância. Com a mão esquerda às costas e a direita repousada sobre a cama, ela continua a me fitar imóvel.
Penso: - Arremesso-lhe a luminária agora ou espero que me ataque?
Tudo acontece tão rápido que não tenho tempo de refletir. Um movimento de pernas e ela salta sobre a cama, agora com a mão esquerda à frente e a longa lâmina de um punhal reluzindo em minha direção.
Chuto suas pernas.
Ela tomba sobre mim.
O abajur se perde no chão.
Resisto ao seu peso erguendo-a pelos pulsos. Pernas enlaçadas lutam por espaço sobre a cama. No meio da disputa já não vejo mais sadismo, nem arrogância em seus olhos. Ela parece feliz. Parece querer me dizer algo, mas sei que não fará. Ela não pode. Só está fazendo o que lhe mandam.
Meus braços cansam. Ela percebe e estranhamente relaxa. Já não tenho mais forças, e nem sei se preciso delas. Agora vejo um sorriso amistoso.
Sua boca toca meu ouvido.
- Pssssssss... Calma, agora descansa. Tudo vai ficar bem.
Naquele momento nosso amigo se rendeu. A fina lâmina toca seu peito, morna e doce. Suavemente foi rasgando a carne. Abri os braços e senti o calor correndo no corpo. Um gosto doce na boca. Seus olhos estavam tão próximos que queimavam os meus. Olhei no fundo daquele espelho alaranjado e vi nosso decrépito amigo morrendo.
Sim, ele morreu. No instante exato que surgi.
Acabou por aceitar que a dor é parte da sabedoria, que a morte é parte da vida e que se morre e renasce muitas vezes.
Resistir à vida é inútil. Ela sempre vai nos testar, pois na espiral que a constitui nada realmente termina e nada verdadeiramente começa. Nos instantes fatais tudo some para reaparecer. É a eterna repetição do mesmo.
Não adianta resistir ou renegar o passado. Ele é a mesma coisa que o futuro só que sendo diferente.