24 Agosto, 2006

Depois do Obsceno

Há momentos em que a razão não dá conta dos nossos processos internos. Assim fica inevitável sentir a fraqueza que nos recebe gentilmente. É a hora de aceitar a impotência diante do inexplicável. Quando tudo que se viveu parece representar o vazio e o oco do peito, os surrados trinta anos nos transformam em um gurizinho remelento, pois não trazem pro agora nenhuma sabedoria.

Acho que isso é se sentir nu dentro das próprias roupas. Depois de expostas todas as nossas falhas, nos vemos indefesos dentro dessa obscenidade e só nos resta buscar luz para transitar em lugares onde a razão não pode nos levar.

De olhos fechados só se sente o calor dessa luz que TOMA CONTA de nós.

"Up and up and up I climb,
When I came up I was so far behind,
My head takes a licking,
But my heart keeps on ticking
Just the same.

Always starting over but somehow,
I always know where to begin.

Round and round and round I ride,
And just when I looked I hadn't even began,
To feel the effect,
A cool, dark fever,
On the brain.

How can I await the day?
last the night am I here to see?

It's the art of feeling naked in your clothes.

Again, again, again I tried,
That's how I knew I would never be denied,
That face in the mirror,
Who could it be? It was my own.

On and on and on I drive,
When will I know I have finally arrived?
So far I've gone, so far to go,
It never ends.

Always starting over but somehow I always know where to begin."

[partes da letra de Where to Begin :: My Morning Jacket]

20 Agosto, 2006

A Reversibilidade

Bem, já vou avisando que este post está chato. Acho que é o excesso de saponáceo.

É que eu estava refletindo sobre o debate que tive com a Anne no post da “Citação II” e pensando mais atentamente sobre a questão da reversibilidade e ambigüidade cheguei a uma outra conclusão. Dentro do contexto do livro (A transparência do Mal, pág. 74) temos um sentido diferente para a reversibilidade que, neste caso, não tem uma ligação com acontecimentos numa linha temporal. Acho que não se trata da possibilidade de desfazer ou reverter fatos acontecidos ou realizados, pois aí eles passam a ser irreversíveis: “não adianta chorar o leite derramado”. O tempo é irreversível em sua natureza, pelo menos o que temos consciência.

A reversibilidade na citação II está relacionada com a ambigüidade das coisas. Está na tensão que carregam entre as matérias que as formam. Ela existe devido à impossibilidade de destilação de uma matéria completamente pura, transparente, livre de impurezas. É como se dentro de uma massa de argila tivéssemos uma pequena bolsa de nanquim e ao pressionarmos a massa essa bolsa se rompesse tingindo tudo e mudando a cor da argila. O mesmo aconteceria com os conceitos: quando pressionamos um conceito em direção à extremidade de seu espectro ele transmuta, passa para um espectro em oposição, revertendo-se no contrário de sua tensão inicial. Quando o BEM é um valor a ser atingido a qualquer custo, reverte-se no MAL que pretendia eliminar. Quando a DOAÇÃO por uma causa é de forma obcecada, transforma-se em ESCRAVIDÃO a um pensamento.

A reversibilidade, nesse sentido, está ligada à impossibilidade do absoluto – a impossibilidade de um valor sem resistência - pois tudo carregaria em si sua própria resistência ou fim. Tudo traz a tensão de seu reverso. A busca da transparência só pode encontrar o opaco e o difuso.

16 Agosto, 2006

Amor Líquido

Se eu tivesse um canudinho,
eu chupava você
Pra dentro do meu mundinho,
pra comigo viver, pra comigo viver
Se eu tivesse um canudinho,
eu me enchia de você
E acabava com o vazio, o vazio de viver
Se eu pudesse te liquefazer,
eu te bebia até ficar de porre
Você me embebeda,
você me enlouquece
Ai meu Deus, como você pode ?

[Canudinho ; Renata Arruda]

Só pra alegrar um pouquinho ;]

15 Agosto, 2006

Pensamento Terrorista

Tenho uma inconformidade,
uma necessidade insaciável de viver,
mas aqui tudo me condena.
Quero morrer e vencer,
calar e ser entendido.

13 Agosto, 2006

Citação II

"Todas as coisas são ambíguas e reversíveis. Afinal é mesmo pela neurose que o homem se protege mais eficazmente da loucura".
Jean Baudrillard

10 Agosto, 2006

Pure Imagination, one more time


"If you want to view paradise
Simply look around and view it
Anything you want to, do it
Want to change the world, there's nothing to it

There is no life I know
To compare with pure imagination
Living there, you'll be free
If you truly wish to be"

[complete lyrics]


Essa é a vista de um dos Templos de Ankor, no Camboja, construido no século X. O lago artificial - formado de escavações e barragens - que compõe esse belo pôr do sol chama-se Srah Srang (pelo menos foi o que eu entendi :] ).

Isso me fez pensar que antes do século IX nada disso existia. Foi preciso que alguém imaginasse essa cena e, o mais importante, acreditasse ser possível concretizá-la.

Alguém sonhou com esse pôr do sol e depois o construiu.

Se ainda não podemos ver coisas como essas é porque não acreditamos o suficiente nelas.

Quem disse que a fé move montanhas não estava de todo errado.

"O imaginário é a base da realidade".

08 Agosto, 2006

O desenrolar

Tava lendo o Guy e fiquei pensando algumas coisas relacionadas com o que ele diz, mas não exatamente com o tema que ele trata. Vou fazer algo que considero errado: pinçar uma frase do livro e trabalhá-la fora do contexto original. Mas vamos lá.

"No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo".
Guy Debord - Sociedade do espetáculo - tese 14


Tá, e por que deve-se buscar um fim? Por que chegar a algum lugar? Qual o motivo de vivermos como a seta que voa na direção do alvo? Para que tantos objetivos se a maioria deles ficarão pelo caminho?

Ok, a crítica é válida para um mundo que vive uma corrida frenética e acelerada em direção ao vácuo de sentido. Buscar motivos e valores para a vida parece-me ser importante. Mas se o sistema se fecha nele mesmo, encontrando-se no início e no fim de seus esforços, é porque se entende. É porque está adaptado e lúcido de seus poderes e limitações.

Os que vivem no sistema é que parecem perdidos. Somos nós que corremos em busca de um fim sem entender seu caminho. Vivemos atrás de um objetivo que não encontrará a nós mesmos no final. Desejamos algo que está sempre um passo a frente. Como um burro de carga correndo atrás da cenoura amarrada ao próprio pescoço seguimos sem entender o fim e sem perceber o desenrolar das coisas.

Para os que ainda conseguem refletir e caminhar resta andar pelas ruas, prestando atenção no MOMENTO, enquanto tentam entender QUEM é o alvo nessa história toda. O caminho não é longo, já que obrigatoriamente não se precisa sair do lugar, mas esse passeio é difícil e exaustivo!

03 Agosto, 2006

Doce Arsênico

O desânimo é o retrato mais fiel da cena que passo a lhes narrar agora. Num canto esquecido pela penumbra, a luz trêmula de um abajur se esforça a mal iluminar o corpo inerte sobre a cama. No teto, gira vagarosamente um velho ventilador que, inutilmente, tenta incomodar o mormaço. Com dificuldade reumática, o ruído das hélices atravessa o quarto em meio à desordem do lugar. Armários, de portas escancaradas, parecem cuspir toda espécie de detrito que cobre o chão do aposento. A clausura, na qual encontramos esse coitado, aprisiona o odor tépido do suor e da doença que tomam conta de tudo.

Faz horas que nada acontece neste quarto, mesmo o ruído constante e alguma manifestação pulmonar esporádica fazem parte da inércia que assistimos até aqui. Mas voltemos nossas atenções ao indivíduo afundado no colchão. Esse ser decrépito, de aparência débil e raquítica, com seus olhos pustulentos e cabelos desgrenhados morrerá em alguns minutos. Bem, mas não se apavorem, esse fato não é digno de pena.

Guardem essa cena na memória. Nossa estória começa agora. AGORA entramos num daqueles momentos implosivos. Como um buraco negro, onde futuro, passado, presente, real e imaginário acontecem no mesmo INSTANTE, no vácuo que consome e destrói tudo para depois expelir um novo momento. Imaginem que todos os instantes são como pequenos pontos que conectam uma teia de possibilidades. Nossa vida é uma sucessão de instantes que percorre as linhas dessa teia e que a todo o momento o acaso pode nos mudar de trajetória ao longo do percurso. Esse instante é como um grande ponto onde todas as linhas da teia convergem. Este é o momento onde a teia acaba e começa.

De olhos fechados, só quer pensar no ruído do ventilador. Cansado de lutar só quer se render, se entregar. No meio do ar denso e do cheiro fétido que lhe cerca, ele a sente chegando. Automaticamente seu corpo responde: os músculos retesam, os sentidos aguçam e ele ergue-se sobre os braços. Não quer abrir os olhos. Sabe que ela está ali, parada diante dele. Sabe que lutará, mas já não tem forças.

Abro os olhos num susto. Ela nem se move, continua ali, oculta na sombra. Lentamente, estico-me para alcançar o abajur e trago-o para perto de mim. A luz chega a sua face e o alaranjado de seus olhos repele o pálido verde dos meus. Agora posso ver os longos cabelos vermelhos e um plácido sorriso cheio de sadismo e arrogância. Com a mão esquerda às costas e a direita repousada sobre a cama, ela continua a me fitar imóvel.

Penso: - Arremesso-lhe a luminária agora ou espero que me ataque?

Tudo acontece tão rápido que não tenho tempo de refletir. Um movimento de pernas e ela salta sobre a cama, agora com a mão esquerda à frente e a longa lâmina de um punhal reluzindo em minha direção.

Chuto suas pernas.

Ela tomba sobre mim.

O abajur se perde no chão.

Resisto ao seu peso erguendo-a pelos pulsos. Pernas enlaçadas lutam por espaço sobre a cama. No meio da disputa já não vejo mais sadismo, nem arrogância em seus olhos. Ela parece feliz. Parece querer me dizer algo, mas sei que não fará. Ela não pode. Só está fazendo o que lhe mandam.

Meus braços cansam. Ela percebe e estranhamente relaxa. Já não tenho mais forças, e nem sei se preciso delas. Agora vejo um sorriso amistoso.

Sua boca toca meu ouvido.
- Pssssssss... Calma, agora descansa. Tudo vai ficar bem.

Naquele momento nosso amigo se rendeu. A fina lâmina toca seu peito, morna e doce. Suavemente foi rasgando a carne. Abri os braços e senti o calor correndo no corpo. Um gosto doce na boca. Seus olhos estavam tão próximos que queimavam os meus. Olhei no fundo daquele espelho alaranjado e vi nosso decrépito amigo morrendo.

Sim, ele morreu. No instante exato que surgi.

Acabou por aceitar que a dor é parte da sabedoria, que a morte é parte da vida e que se morre e renasce muitas vezes.

Resistir à vida é inútil. Ela sempre vai nos testar, pois na espiral que a constitui nada realmente termina e nada verdadeiramente começa. Nos instantes fatais tudo some para reaparecer. É a eterna repetição do mesmo.

Não adianta resistir ou renegar o passado. Ele é a mesma coisa que o futuro só que sendo diferente.