Desculpe-me se atrevo a te falar, mas deitado aqui no chão gelado de minha cela resolvi me revoltar.
Passei o dia perambulando neste cômodo, que nem sei por que chamam assim, pois mais adequado seria chamá-lo
“incômodo”, mas as regras foram escritas por ti, e mesmo que me desagrade, é assim que vivemos hoje.
Como ia te narrando, carreguei meu corpo débil por quilômetros, aqui mesmo em meu cativeiro. Andei tentando espantar a febre e a fome. Sei que assim me mantêm para que eu fique tonto, confuso e fraco; mas entendi tuas regras e resolvi aceitar teu ardil. Então levante teus estandartes, pois meus ossos estão erguidos e aqui ficarão até o último golpe deste embate.
Tu chamarias de um jogo injusto, a opulente força do teu sólido Estado contra um único, roto e etéreo mendigo. No entanto não uso tua lógica para expressar minhas idéias. Teu conceito de justiça não me faz sentido, mesmo assim resolvi respeitá-lo, já que estas são as armas que me apresentas para o duelo e só assim poderei rendê-lo.
Podes chamar de arrogância, tripudiar e rir deste leproso insolente que te escreve, pois não entenderias se pedisse respeito por minhas visões. Não entendes quando digo que tua ordem eu combato com meu amar, que teu ‘errado’ é o meu ‘caminhar’ e que teus pesadelos são os passos que imprimo no ar. Tomas-me por louco quando te digo que me agrada mais o frio metal dos grilhões ao sedoso laço de tuas gravatas, teus uniformes dissimuladamente alinhados e tuas grandes salas de espera.
Lanças-me aqui, na periferia de teu mundo, para que eu perca minhas lembranças, esqueça quem sou, apague meus vestígios... Das ruas desalinhadas do lazareto, onde tudo me é tão familiar, vão brotar os primeiros gritos que ecoarão em tuas janelas. Do meio do teu lixo ergue-se minha revolta.
Agora mesmo, enquanto lês este informe, teu mundo desmorona. Percebes agora que não conterás meus golpes? Que nem teus escudos e cassetetes poderão impedir o teu fim? Entende que teu concreto mundo não passa de um delírio que vendeste tão caro aos cegos coitados que te seguem?
Não importa se me fazes cativo, aqui enjaulado, vou continuar gritando “insanidades” até acordar os teus cães, pois idéias não serão detidas, nem pelo mais numeroso dos exércitos, e as minhas já vagam calmamente entre tuas fileiras.
Quando tudo terminar acredito que ainda estarás respirando e com saúde. Espero sinceramente que teu sofrimento não seja muito e que consigas viver mais tranqüila nessa nova vida que se apresenta. Sei que aprender é dolorido e no teu caso a dificuldade será tamanha, pois tuas idéias não serão de grande auxílio nesses tempos que virão.
Não há pressa em se preocupar com tua sorte, pois os dias chegarão de mansinho, como tigres numa caçada noturna, nem vais ouvir o rosnar. Porém, chegarão com certeza
Minhas mais sinceras saudações.