17 Janeiro, 2006

Carta à Agonia

Tudo o que questionamos existe. Ou por já ‘ser’ ou por ‘ser negado’... Onde existe é que temos que descobrir. Concreto ou imaginário são os dois versos do que nos constitui. Diferentes e inseparáveis.

Interpelar o Tempo não será de grande utilidade, pois ele não interromperia seu fluxo para nos responder... Embarca e aproveita o passeio, para ele nossa existência é uma pequena fração do nada.

Não tenhas medo, porque tudo é... Senão foi ainda será. Tu também és teus sonhos, então não podes ser sombra ou parte de algo que és por completo. Não tenhas dúvida do que presencias, seja idéia, fantasia ou carne viva. Não preocupe tua mente com tantas questões, as respostas virão de qualquer maneira... Então não turve a beleza de cada segundo com lágrimas.

Acreditas que somos todos sádicos, te digo que Ninguém gosta da Dor que dói na alma, mas ela é a mais eficiente das professoras. Se do alto de minha ignorância pudesse te dar um conselho, seria esse: não te apliques muito nos estudos, mas aprenda as lições rapidamente.

Qual o sentido de rotular, classificar e definir a vida? Que falsa segurança isso pode te trazer? Achas que teria mais controle do mundo que te cerca se tal conhecimento pudesse atingir? Liberta teus pensamentos de tal ilusão, muitos tolos desperdiçaram suas vidas e ceifaram a de milhões acreditando poder controlar o incontrolável.

Somos como pequenos espinhos que pontilham o tempo, alguns cravam suas marcas no fundo, outros só arranham a superfície. Não saberia definir a essência da vida ou o sentido da mesma, mas só consigo ver sentido quando junto um punhado delas. Trilhando sozinhos através do tempo seriamos riscos ilegíveis. Quando entendemos que as consciências são como setas lançadas para o futuro, entrelaçando vidas e significados, então se torna mais fácil ler rabiscos no tempo.

Quem seria eu para te ensinar alguma coisa. Sou apenas mais um espinho imprimindo minha vida, mas não deixe a visão te iludir. Nem tudo o que se tem se vê, pois levas um universo dentro de ti e o muito que fito é só o que te escapa na fresta dos olhos. Não armes a descrença que habita em ti, pois carregas muitos outros tesouros na bagagem e teus horizontes vão muito além do que podes ver. A história está sempre em curso, sempre incompleta aguardando a próxima linha, então não desanime e siga imprimindo as tuas, cada dia mais fundas.